Na minha adolescência, era de lei, todo domingo de manhã, a caminho da Escola Bíblica Dominical (EBD), tirar foto do céu, que, na maioria das vezes, era de um azul claro demais. Gostava de olhar para cima e admirar as nuvens. Um clichê, mas é sincero o meu sentimento. Dessas coisas, continuo admirando o céu. Gosto de parar as minhas atividades, qualquer que sejam elas, mas ainda mais se for algo que me requer um esforço intelectual.
Quando estou escrevendo ou lendo, preciso parar algumas vezes para respirar e assimilar o que estou fazendo. Mas, às vezes, o ritmo está tão intenso com o prazo das entregas chegando ao limite que é difícil sentir que posso parar por alguns segundos. No último mês, senti bastante isso.
Na corrida pela escrita da minha dissertação, em muitos momentos não conseguia parar e fazer o que mais gostava. Sentia falta do “sentir que podia parar”. O prazo estava acabando e ainda tinha muita coisa para fazer.
Mas quando entreguei o texto no meio da tarde, um peso saiu de mim. Até o café que passei logo depois parecia diferente, o céu parecia mais brilhante e o pôr do sol daquele dia parecia até mais bonito do que qualquer outro. Eu havia acabado de entregar algo muito importante.
Nos últimos dias que antecederam o momento da entrega, lembrei de um artigo que havia lido um tempo atrás, em 2023: O sagrado na vida cotidiana do francês Michel Leiris. Um dos mais diferentes que já pude ler na academia.
E nele, Michel está preocupado em falar dos objetos, lugares e circunstâncias presentes em sua infância que lhe emocionam e em contar as histórias que os acompanham. Coisas do dia a dia, como alguns objetos que pertenciam ao seu pai, alguns lugares dentro da casa, passeios com sua mãe e irmã pelos parques de Paris ou a correção das palavras que pronunciava errado por algum adulto de sua família. Em todas essas lembranças, o autor encontrou o sagrado para si.
Quando íamos discutir esse artigo, em um pequeno grupo de estudos, uma dinâmica de trazermos algo que nos emocionava foi pensada para a reunião. No dia, não levei nada material, mas contei desse fascínio pelo céu e as caminhadas para a EBD. Era a parte do domingo que eu mais gostava.
Eu adorava acordar cedo, preparar o meu café da manhã, me arrumar para a EBD, caminhar, olhar o céu, chegar para mais uma aula na classe dos jovens e mais um culto matutino, voltar para casa e almoçar o de sempre: o frango assado que minha mãe preparava. Tudo cronometrado, mas ao mesmo tempo, nada cronometrado. Era rotina.
Apesar de muitas vezes sentir que não podia parar de escrever e ler, foram as rápidas paradas para observar um pouco o céu que me ajudaram a segurar a onda. Lembrei do artigo porque esse momento de pausa, o meu jeito de parar e voltar para mim, é sagrado.