Estamos acostumados, em períodos eleitorais, a constatar numerosas ofertas de representação em que a identidade religiosa precede a política. Neste sentido, os títulos eclesiásticos são usados como credenciais, ativos da suposta santidade pública.
A retórica frequentemente explora o argumento da moralidade. Líderes espirituais que se dizem indignados com a política e daí, sugerem, estão dispostos a fazer um sacrifício: descerão dos seus púlpitos e entrarão nas câmaras legislativas ou palácios dos governos para moralizar a vida pública.
Os tais que usam o nome de Deus para se elegerem como representantes do povo propõem hermenêuticas bíblicas criativas como artifício para interpretar a Constituição Federal. Produzem, assim, excrecências jurídica e teológica.
O fato é que a exposição política partidária eleitoral dos evangélicos nessa quadra histórica aumentou o poder de alguns grupos específicos, contudo, em nada contribuiu para o testemunho do evangelho.
A sociedade brasileira olha para nós, evangélicos, e se escandaliza. Não venham dizer que isso é perseguição, pois, soa para as pessoas de outros credos, ou de credo algum, que os evangélicos levam tão a sério a guerra cultural que estão dispostos a atropelar quem se colocar à frente.
Brasil afora, os pastores-bispos-missionários-apóstolos que clamam por emendas Pix para abençoar os municípios-paróquias cresceram em poder e diminuíram em credibilidade.
Quem transforma o templo em comitê eleitoral perdeu completamente o temor a Deus. E não adianta dissimular levando candidatos para o centro do culto sob pretexto de que temos que orar pelas autoridades.
É triste saber de casos de pessoas que saíram de casa para um culto, sedentas espiritualmente, necessitadas de uma oração, desejosas de cantar louvores, na expectativa de desfrutarem da comunhão entre os irmãos, dispostas a ouvir uma mensagem bíblica, entusiasmadas para levar seus filhos para a escola bíblica dominical, no entanto, percebem que o assunto que mais entusiasma o seu pastor é a política eleitoral. Voltam para casa frustradas e confusas.
Foram estimuladas a votar na força do ódio quando buscavam no culto somente o amor de Jesus.
Amo a igreja mesmo com todas as suas incongruências. Já tive vergonha de me identificar como pastor nos espaços públicos, como se tivesse que pedir desculpas pelo que não fiz.
Na leveza e simplicidade de Jesus, na força do amor, enquanto pudermos, seguimos humildemente contribuindo para fazer da comunidade de fé, que chamamos de igreja, um espaço de serviço para quem precisar, jamais um espaço de poder para quem pagar.