Abuso espiritual e masculinidade

O abuso de poder se manifesta em diversas modalidades: físico, saber, econômico, sexual, etário, hierárquico, emocional, verbal, geográfico, doméstico…

Nesta coluna, pretendo destacar o abuso espiritual realizado em nome de Deus. Quando o abusador diz possuir autoridade dada por Deus para dizer o que diz e fazer o que faz.

Max Weber teorizou sobre os três tipos puros de dominação, sublinhando a crença na legitimidade do poder: Racional-Legal, Tradicional e Carismática. Sobre especificamente o poder carismático na versão religiosa, um grupo se submete à liderança de um dos seus membros baseado em que autoridade? A legitimidade do poder exercido pelo líder repousa nos laços frágeis da confiança. Nesses termos, o líder religioso tem o seu poder legitimado porque o grupo acredita nele. No cenário de crise de confiança, a liderança espiritual se desmantela.

A linha da fronteira entre poder religioso legítimo e abuso do poder religioso é tão tênue que se torna invisível a olho nu.

Quando olhado o fenômeno de longe, observadores de má vontade simplificam acusando todo líder espiritual de abusador. Nessas generalizações preconceituosas, dizem que é só uma questão de tempo para o líder religioso ultrapassar a linha da fronteira e se acostumar com a condição de abusador.

Em qualquer cenário de liderança carismática, os frágeis laços da confiança determinam a legitimidade.

Nos últimos dias, observamos líderes religiosos e personalidades candidatos a influencers espirituais saírem dos seus espaços sagrados e seguros para vocalizar nos espaços públicos o que concebem como masculinidade.

Simplificando o arremedo da masculinidade em questão, religiosos emponderados modulam retóricas que geralmente depreciam as fêmeas.

O abuso espiritual consiste em colocar Deus na conversa para a partir do Jardim do Éden acusar as fêmeas de conchavo com o tentador para infernizar a vida do macho.

Todos os males sociais, para os apologetas da reconstrução do macho, passam pela insubordinação feminina.

A “heresia” mais combatida entre setores cristãos ditos tradicionalistas, ortodoxos e/ou reformados: emancipação feminina.

Na visada que estou apenas pincelando, reconquistar a família tradicional passa pelo repactuar a submissão feminina.

Caso da mulher que apanhava do marido

Dia exaustivo do médico que chegou em casa, tomou um banho morno demorado e depois afundou na poltrona para assistir a um pouco de TV antes do jantar.

Carinhosamente a esposa pôs a mesa. Lasanha à bolonhesa acompanhada de Couve-Flor gratinada com molho branco. Não podia faltar nas refeições um prato com pães frescos cortadinhos.

– E o refrigerante?

– Esqueci! Mas vou fazer um suco rapidinho.

Foi o suficiente para gerar o aborrecimento dele que evoluiu para agressões verbais.

– Trabalho que nem um cavalo de carga para que nada falte nessa casa e não consigo beber a porra do refrigerante que gosto.

O que mais o irritou é que ela não respondeu nada. Foi para a cozinha fazer o suco sem esboçar qualquer reação. Levantou-se da mesa, foi atrás dela e a agrediu com tapas, empurrões e gritos.

Aliviado depois do seu momento de fúria, voltou à mesa e jantou, sem esquecer de beber dois copos da limonada suíça açucarada.

Dias após, a mulher que apanhava do marido teve a coragem de contar à mãe a violência doméstica sofrida. A mãe a censurou e ressaltou o quanto o genro era especial. Incentivou-a a orar e a vigiar para não dar motivos de aborrecimentos.

Encorajada, chegou a um consultório de psicologia à procura de ajuda. A sua fala demonstrava a sua condição:

– Meu marido é um homem de Deus, um homem maravilhoso, se ele me bate é porque eu devo dar motivos. Eu não devo ser uma pessoa boa porque eu apanho de um homem de Deus!

É fácil encontrar o discurso do abusador na voz resignada da abusada

Para legitimar o abuso, como se fosse possível, avacalham textos bíblicos vadios sobre estruturas sociais e familiares das comunidades rurais na Palestina no período histórico que remete a séculos antes de Cristo.

Os líderes religiosos, quando querem abusar, recorrem aos livros sagrados ou às tradições em busca de legitimação. Modulam suas opiniões e taras com leituras literais, no caso cristão, da Bíblia.

Jesus vivia chamando os intérpretes dos textos sagrados e os líderes que comandavam a sinagoga, escribas e sacerdotes, de hipócritas. O mestre de Nazaré, filho de Maria e de José, acusava a duplicidade dos religiosos que abusavam do poder. Para Jesus, o abusador espiritual é por definição um hipócrita.

“Pois atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem aos ombros dos homens; eles, porém, nem com seu dedo querem movê-los; e fazem todas as obras a fim de serem vistos pelos homens; pois trazem largos filactérios, e alargam as franjas das suas vestes” (Mateus 23.4-5).

 

Valdemar Figueredo

Editor do Instituto Mosaico, professor universitário, pesquisador (Grupo de pesquisa Passagens, IFCS-UFRJ), cientista social e pastor. Doutor em Ciência Política (Iuperj, atual IESP-UERJ), Doutor em Teologia (PUC-RJ). Pós-doutorado em Sociologia (USP).

OPINIÃO
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