Mística de Olhos Abertos

Espiritualidade” passa a ser usada como palavra imprecisa. Depende de quem a usa ou como a experimenta. Realidade de introspecção radical do individualismo e enfraquecimento das expressões religiosas. Nesse sentido “espiritualidade” seria a “nova religiosidade” ou o “pós-religioso” que caracteriza o espírito de época. O conceito de “mística da justiça de Deus” caminha na direção contrária dessa tendência individualista, pois trata-se fundamentalmente de uma “mística política”.

A antiga teologia política caracteriza-se pelo acompanhamento da formação e desenvolvimento do Estado medieval e posteriormente o Estado moderno. Independentemente do tempo e lugar, tal abordagem estatal restringiu-se às instâncias hierárquicas da legitimidade do poder.

Enquanto que a nova teologia política, marcada pela “transição antropológica” proposta por Karl Rahner, notadamente afeita à noção dialética de temporalidade, amplia o espectro do político. O conceito do “político” não se restringe ao Estado, muito menos às relações de poder, prioriza as concepções da sociedade civil (METZ, 2013, p. 36).

Decorre então dessa chave de leitura a conclusão que a espiritualidade cristã é uma espiritualidade política e não uma espiritualidade escapista em que o indivíduo mergulha em si mesmo e nada além. A mística de olhos abertos da qual trata Metz é cristã na medida em que se pauta pela compaixão. Isto é, a exemplaridade de Jesus que sensível enxergava o sofrimento alheio e manifestava a justiça de Deus. A mística de olhos abertos é política, pois enxerga o outro e movido pela compaixão volta-se para Deus. Espiritualidade com feições comunitárias e sociais (METZ, 2013, p. 85).

Essencialmente, Metz investe contra as possibilidades de reducionismos quando estabelece como eixo fundamental da sua teologia a noção de mística política. 1) reducionismo da política: disputa pelo poder no âmbito do Estado; 2) reducionismo da mística: espiritualidade meramente privada; 3) reducionismo da eclesiologia: Cristo é pensado, mas não seguido.

Em resumo, na construção da sua teologia política, Metz é enfático ao caracterizar o cristão como aquele que é identificado no seguimento a Jesus. Cristologia enquanto conhecimento prático que conduz à ação social solidária. Política num sentido amplo. Mística de olhos abertos. “Certamente o cristianismo não formula primariamente uma moral, mas uma esperança.” (METZ, 2013, p. 186).

No seguimento a Jesus, o cristão descobre que a agenda pública lhe interessa assim como lhe compete. A política, neste sentido, investe-se de implicações que vão além de partidos e estruturas de poder. A cristologia anunciada fala de responsabilidades, abertura a Deus e ao próximo. “O conteúdo essencial dessa responsabilidade universal é o seguinte: não existe sofrimento no mundo que não nos diga respeito.” (METZ, 2013, p. 186).

A contundência de Metz nada tem a ver com ativismo de última hora para suprir adesões políticas temporais, em nome de Deus, com todo aparato eclesiástico. Essa fase, diz ele, já foi superada. A nova teologia política investe-se de conteúdo com pretensões universais sim. A responsabilidade universal do cristão está relacionada aos direitos humanos e aos eventuais ultrajes a esses direitos. O princípio inegociável do seguimento a Jesus é a promoção da justiça a favor dos que sofrem e estão em condições de vulnerabilidades. A igualdade elementar dos seres humanos está prescrita na tradição bíblica, bem como nos fundamentos do Estado moderno de direito.


RESENHA

METZ, Johann Baptist. Mística de olhos abertos. São Paulo: Paulus, 2013.

Valdemar Figueredo
Editor do Instituto Mosaico, Pesquisador da USP (pós-doc), cientista político e pastor