Vinho Novo, Odres Velhos? Sobre Igreja e Estruturas

A cultura contemporânea é marcada por grandes e constantes transformações. Como podemos pensar em RENOVAÇÃO RADICAL DA IGREJA à luz da bíblia nesse contexto tão dinâmico”? A empreitada parece repetitiva no que apresenta a necessidade de a igreja ser responsiva tanto à bíblia quanto à época na qual está.

As mudanças sugeridas parecem um manual de sobrevivência. Como se estivesse subentendido que há uma crise aguda, igrejas em descompasso com a sociedade. Crise de linguagem. Estruturas anacrônicas que cumprem a função de satisfazer a memória afetiva. Conquanto as mudanças sejam necessárias, elas são admitidas e realizadas em muitos ambientes eclesiásticos a contragosto. Reformas que desestabilizam porque interrompem a ordem suspensa sobre as cordas dos costumes.

Vinho novo, odres novos é um livro sobre estruturas eclesiásticas. O autor convida a uma reflexão em que a igreja leva a sério a sociedade. A comunidade de fé vive no tempo e no espaço. Perder a dimensão social da fé é o mesmo que perder o rumo. A tese de Snyder é o próprio texto bíblico:

“E ninguém põe vinho novo em odres velhos, pois o vinho novo romperá os odres; entornar-se-á o vinho, e os odres se estragarão.” (Lucas 5.37)

Argumento central: a igreja precisa de constantes reformas para que a essência da mensagem de Jesus fique evidente e não confundida com tradições e costumes. O autor apresenta de forma inequívoca o seu objetivo com o livro:

“Este livro foi escrito a fim de enfatizar a relatividade das estruturas da igreja e a fim de sugerir alguns pontos de partida para a necessária atualização dos odres.” (SNYDER, 2001, p. 17).

Claro que a pretensão de escrever um manual de como as igrejas devem ser neste tempo seria de uma arrogância insana. O livro escrito na década de 1970 já está desatualizado. As situações nos EUA e no Brasil mudaram radicalmente. Incluindo as concepções de igreja e indivíduo.

Os apontamentos de Snyder que abordam de forma prática a necessária atualização da igreja, não figuram como agenda, mas como inspiração para que as comunidades leiam as suas realidades e apliquem os princípios. Ele não elabora um projeto detalhado e compartilha como se fosse um modelo a ser seguido, prefere falar em princípios bíblicos que devem modelar as estruturas.

O autor mira na igreja institucional para falar em barreiras. A igreja disposta a viver o evangelho de Jesus teria que superar o obstáculo que é a institucionalização da igreja. A forma como ele chega a essa conclusão? O que ele chama de institucionalização? Desfazer-se das estruturas seria o mesmo que desinstitucionalização? Ora, o autor parte do princípio que o obstáculo a ser superado é esse e não se dá ao trabalho de nos contar como chegou a essa conclusão. Com um pressuposto tão fraco não se constrói nenhum argumento forte.

No capítulo “Mundo à beira do abismo?”, os problemas metodológicos são incontornáveis. O autor faz um paralelo entre os séculos primeiro e vigésimo primeiro. Chegou à conclusão que o mundo de hoje é muito diferente do mundo do século primeiro. Parece que eu estou exagerando na ironia, mas de fato a lógica do autor foi acentuar o quanto no nosso mundo urbano sob o signo da produção e da tecnologia a igreja lida com desafios inéditos. Obviedades a parte, o leitor mais criterioso consegue já no segundo capítulo constatar que o livro em questão retrata bem mais um sentimento do que uma reflexão minimamente amparada por critérios analíticos.

O livro registra duas perplexidades de um pastor: com as acelerações das mudanças das sociedades urbanas tecnológicas e com a passividade da igreja frente a essas transformações radicais. Acho que a inquietação é a maior contribuição do Snyder com esse livro. Que pastores e igrejas não se acomodem nos seus costumes e tradições, mas que tenham coragem de fazer mudanças em diálogo com os princípios bíblicos e com a sociedade.

Valdemar Figueredo
Editor do Instituto Mosaico, Pesquisador da USP (pós-doc), cientista político e pastor